Entre Pontes e Cemitérios
Entre Pontes e Cemitérios

A Fecomércio Bahia e o verdadeiro sentido da liderança
Ontem, dia 27 de junho de 2026, participei de mais uma reunião na Fecomércio Bahia, instituição à qual dedico parte significativa da minha vida há quase duas décadas.
A reunião foi presidida pelo presidente Kelson Fernandes, com a presença de todos os conselheiros da Casa. Ao final dos trabalhos e após a votação de aprovação das contas do exercício 2025/2026, o presidente encerrou sua manifestação utilizando a conhecida reflexão atribuída a Jorge Amado sobre o “cemitério” das relações humanas.
Saí dali refletindo não sobre eleições, chapas vencedoras ou derrotadas, mas sobre o verdadeiro significado da liderança.
Em determinado momento, foi mencionada a metáfora do “cemitério”, um texto forte que aborda decepções, confiança quebrada e relações que deixam de existir em nosso universo afetivo.
Mas fiquei pensando: será que instituições podem ter cemitérios?
Pessoas podem escolher quem desejam manter em suas vidas. Já as instituições, especialmente aquelas que representam milhares de empresários, trabalhadores e famílias, precisam construir pontes, não sepulturas.
A divergência não é um problema da democracia. Ela é a própria essência da democracia.
Ao longo da história do Sistema Comércio, muitos líderes passaram por seus cargos. Alguns deixaram legados extraordinários. Outros enfrentaram críticas. Todos, sem exceção, foram passageiros diante da grandeza das instituições que ajudaram a construir.
O Sesc, o Senac, as Federações e os Sindicatos não pertencem a indivíduos. Não pertencem a sobrenomes. Não pertencem a grupos. Pertencem à coletividade empresarial que os sustenta e lhes dá razão de existir.
Por isso, quando uma eleição termina, não deveria haver vencedores de um lado e sepultados do outro. Deveria existir apenas uma instituição mais forte, capaz de acolher diferentes pensamentos, visões e contribuições.
As árvores que produzem frutos recebem pedras. Isso faz parte da liderança. Quem ocupa posições de destaque inevitavelmente será aplaudido por alguns e questionado por outros. O que diferencia os grandes líderes é a forma como lidam com aqueles que discordam.
A verdadeira liderança não elimina vozes. A verdadeira liderança escuta.
A verdadeira liderança não constrói muros. Constrói pontes.
A verdadeira liderança não cria cemitérios simbólicos para seus opositores. Cria espaços para que todos possam contribuir, inclusive aqueles que pensam diferente.
Ao final de cada mandato, de cada eleição e de cada disputa, o que permanece não é o poder. O que permanece é o legado.
E os maiores legados da história sempre foram construídos por líderes que compreenderam que o respeito à divergência é uma das mais nobres formas de grandeza.
Que possamos sempre escolher o caminho do diálogo, da escuta e da construção coletiva. Porque instituições fortes não são aquelas que silenciam diferenças, mas aquelas que transformam diferenças em oportunidades de crescimento.
Por Juranildes Araújo
Presidente do Sicomércio Camaçari e Região Metropolitana
Empresária, líder associativista e defensora do diálogo como instrumento de transformação.